Às vezes, quando deito, tarde da noite, sinto algo me estraçalhar, corroer, como se fosse uma destruição. Mas não é propriadiamente uma destruição: há uma construção, uma certa criação. Como se algo estivesse vivo dentro de mim, estreitando-me, procurando uma saída, feito um bicho na jaula, cerrando as grades com os dentes. Então a boca seca, demitindo a fábrica de saliva: me sinto transição da palavra. Depois, me sinto a palavra, com sua forma visual, seus aços, seus reflexos, sua história, seus amores, sua estranha forma de ver o mundo, empregada através da linguagem de vários escritores ou poetas que se tornaram seus amantes, que se condicionaram a servi-la, espreitá-la e desejá-la em noites como essa, em que me sinto a própria palavra.
E eu prefiro vê-la assim, de cima para baixo e vice-versa, em suas duas formas antagônicas:
Tenho medo
de me matar
antes da hora.

6 comments
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10 Julho, 2007 às 12:03 pm
Srta. Bia
Esse texto me lembrou um título de filme que assisti outro dia: “A vida secreta das palavras”.
E segue essa idéia, elas moram dentro de nós. E aparecem. Ás vezes. bjos
13 Julho, 2007 às 2:48 am
Marcos
Realmente. Às vezes me confundo com elas.
20 Julho, 2007 às 5:37 pm
Luisa
também tenho esse medo :T
me pareceu que o texto foi saindo, foi deslizando por mim, até que escorreu totalmente.
enfim.
1 Agosto, 2007 às 10:03 pm
Mariana
…
entendo esse medo.
14 Agosto, 2007 às 6:15 pm
Srta. Bia
Se eu sumi, imagine então você…rs. Pois é, saudades.
22 Agosto, 2007 às 1:21 pm
Patricia
Acho que sei como que é.