You are currently browsing the monthly archive for junho 2007.

os lábios ressecados
pelo frio
sussurram uma voz que
um dia foi ouvida

rouquidão,
eu me entrego a sua suaviloqüência
e deixo desatar as cores da tua voz
que caem
displicentemente
num relicário de delicadezas

ou então
guardo-as na caixinhas de espera
e te sigo na espera
e te deixo livre
só então te executo,
como um músico que executa
sua canção cheia de silêncio
e de vozes, também roucas

nenhuma amplidão me cabe
agora
senão a amplidão do amor
(suave casaco que uso,
ao teu encontro,
seria amplidão?)

dos lábios,
só ressecam em contato com o frio
e com cigarros
mas interferem na voz: rouquidão,
não esta rouquidão comum,
atribuída a milhares de doentes,
outra: uma rouquidão que nasce do efeito
de estar ao lado da pólvora, do dinamite luminoso

à escuta,
extremo espelho de um espaço
que não cabe em mim, pois já
não sou matéria palpável: sou luz
brilhantemente luz
atenta aos olhos,
numa espera rouca de se acender.

Anúncios

Olhos, tinha-os negros. A manhã de pernas longas arreganhava raios gélidos sobre rostos morenos distendidos no chão. Fitava-a, enquanto girantes pás barulhavam sobre os corpos. Um ar pesado e lento, tempo esticado entre preguiças e comemorações televisionadas.
Já posso dar bom dia?
Não sei, acho que os músculos não respondem, então, até não responderem, o dia não começou pra mim.
Complicado…
Até que não. É só uma questão de princípios.
Lábios num rompante. Línguas. Os sons ensurdecem quando sentidos aguçam. Atritam-se peles entre a seda e a brisa vinda do teto. Uma torcida vibrante por um jogo trilha-sonora de carícias. Invadia a manhã janela adentro, cozinhando as pernas nuas dos dois. Mas eram um ser de quatro pernas, meio-polvo de sensações e descobrimentos. Desbravadores de si mesmos. Dedos entre cabelos longos cobrindo os seios.
Já posso?
Já pode.

Vamos para Babilaque
Verter sonhos e versos
em taças de vinho
e embriaguar-se de realidade

Vamos para Babilaque
Lá seremos inimigo do rei
Trocaremos alcalóide por poemas
e revolução será com pétalas,
apenas

Vamos para o infinito
Vamos para Babilaque
Lá seremos reis, sem desfalques
Esqueçamos o passado
Bah, bilac

1. Microcosmo
Escuta: é meu coração batendo e batendo e batendo, cada vez mais forte, mais grave. Sonho com anjos e reparo que eles não possuem asas, nenhum mecanismo que os faça voar. São entregues a si mesmos como nós nos entregamos ao amor. E às vezes, como nós, eles não protegem, não seguram a barra e saem envergonhados, pela porta dos fundos. Aperto tua mão bem forte, como se fosse a única saída para a confluência dos lábios. E coloco tua cabeça sobre meu peito.

2: Sofia
Recolho minhas dúvidas sobre um chão perplexo. A humanidade inteira se ajoelha diante dos olhos de Sofia, mas minha única reação é observá-la, mais curioso que o céu diante de um vulcão. Lanço-me ao pânico e revejo todo o cenário: reflexos de carros antigos nos espelhos da cidade, pântano de gente apressada nas faixas de pedetres, programas insuportáveis na tevê e uma chuva tímida.
Eu pregado ao chão, de novo.

3.
olhos cheios de neblina não captam o sistema
de idéias portáteis – nem eu aplico
meu constrangimento diante do novo:

guardo segredo para alguém que virá
e escutará (em murmúrio) que as nuvens são tetos tácteis.

junho 2007
S T Q Q S S D
    jul »
 123
45678910
11121314151617
18192021222324
252627282930  

Categorias