os lábios ressecados
pelo frio
sussurram uma voz que
um dia foi ouvida

rouquidão,
eu me entrego a sua suaviloqüência
e deixo desatar as cores da tua voz
que caem
displicentemente
num relicário de delicadezas

ou então
guardo-as na caixinhas de espera
e te sigo na espera
e te deixo livre
só então te executo,
como um músico que executa
sua canção cheia de silêncio
e de vozes, também roucas

nenhuma amplidão me cabe
agora
senão a amplidão do amor
(suave casaco que uso,
ao teu encontro,
seria amplidão?)

dos lábios,
só ressecam em contato com o frio
e com cigarros
mas interferem na voz: rouquidão,
não esta rouquidão comum,
atribuída a milhares de doentes,
outra: uma rouquidão que nasce do efeito
de estar ao lado da pólvora, do dinamite luminoso

à escuta,
extremo espelho de um espaço
que não cabe em mim, pois já
não sou matéria palpável: sou luz
brilhantemente luz
atenta aos olhos,
numa espera rouca de se acender.

Anúncios