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Às vezes, quando deito, tarde da noite, sinto algo me estraçalhar, corroer, como se fosse uma destruição. Mas não é propriadiamente uma destruição: há uma construção, uma certa criação. Como se algo estivesse vivo dentro de mim, estreitando-me, procurando uma saída, feito um bicho na jaula, cerrando as grades com os dentes. Então a boca seca, demitindo a fábrica de saliva: me sinto transição da palavra. Depois, me sinto a palavra, com sua forma visual, seus aços, seus reflexos, sua história, seus amores, sua estranha forma de ver o mundo, empregada através da linguagem de vários escritores ou poetas que se tornaram seus amantes, que se condicionaram a servi-la, espreitá-la e desejá-la em noites como essa, em que me sinto a própria palavra.

E eu prefiro vê-la assim, de cima para baixo e vice-versa, em suas duas formas antagônicas:

Tenho medo
de me matar

antes da hora.

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Olhos, tinha-os negros. A manhã de pernas longas arreganhava raios gélidos sobre rostos morenos distendidos no chão. Fitava-a, enquanto girantes pás barulhavam sobre os corpos. Um ar pesado e lento, tempo esticado entre preguiças e comemorações televisionadas.
Já posso dar bom dia?
Não sei, acho que os músculos não respondem, então, até não responderem, o dia não começou pra mim.
Complicado…
Até que não. É só uma questão de princípios.
Lábios num rompante. Línguas. Os sons ensurdecem quando sentidos aguçam. Atritam-se peles entre a seda e a brisa vinda do teto. Uma torcida vibrante por um jogo trilha-sonora de carícias. Invadia a manhã janela adentro, cozinhando as pernas nuas dos dois. Mas eram um ser de quatro pernas, meio-polvo de sensações e descobrimentos. Desbravadores de si mesmos. Dedos entre cabelos longos cobrindo os seios.
Já posso?
Já pode.

1. Microcosmo
Escuta: é meu coração batendo e batendo e batendo, cada vez mais forte, mais grave. Sonho com anjos e reparo que eles não possuem asas, nenhum mecanismo que os faça voar. São entregues a si mesmos como nós nos entregamos ao amor. E às vezes, como nós, eles não protegem, não seguram a barra e saem envergonhados, pela porta dos fundos. Aperto tua mão bem forte, como se fosse a única saída para a confluência dos lábios. E coloco tua cabeça sobre meu peito.

2: Sofia
Recolho minhas dúvidas sobre um chão perplexo. A humanidade inteira se ajoelha diante dos olhos de Sofia, mas minha única reação é observá-la, mais curioso que o céu diante de um vulcão. Lanço-me ao pânico e revejo todo o cenário: reflexos de carros antigos nos espelhos da cidade, pântano de gente apressada nas faixas de pedetres, programas insuportáveis na tevê e uma chuva tímida.
Eu pregado ao chão, de novo.

3.
olhos cheios de neblina não captam o sistema
de idéias portáteis – nem eu aplico
meu constrangimento diante do novo:

guardo segredo para alguém que virá
e escutará (em murmúrio) que as nuvens são tetos tácteis.

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